Estou de
volta pro meu aconchego… E devo dizer que estava pronta pra voltar, diferente
da última vez que eu saí do Brasil, pra fazer mestrado nos Estados Unidos. Da
primeira vez, eu não queria voltar não. Não porque não queria estar no Brasil,
mas porque perdi uma oportunidade única de ser parte da primeira turma de um
PhD, com bolsa integral e trabalho pago de pesquisa na universidade. Mas o
Senado não autorizou a extensão da licença e eu tive que dizer não e voltar.
Foi frustrante, e voltei já com uma atitude negativa. Tudo fica mais difícil.
Dessa vez
não. Depois de dois anos viajando pelo mundo, vivendo em hotéis e albergues,
arrumando e desarrumando mala o tempo todo (tirando os seis meses que eu vivi
na Tailândia), chega uma hora que tudo que você mais quer é a sua casa, o seu
armário, uma rotina. Em suma, eu estava pronta pra voltar pra minha vidinha
morna, café com leite, normal. Passei meses me preparando para a volta, já
prevendo uma leve depressão (que sempre ocorre e que até tem nome na
psicologia: choque cultural inverso, ou seja, o choque de voltar pra sua
cultura materna). Mas achei que dessa vez seria diferente.
E foi. Por
um lado, está sendo bem diferente. Faço planos. Quero refazer a casa, criar
rotinas novas, experimentar coisas novas, trazer um pouco do que eu aprendi
nessa viagem pro meu dia a dia. Meditar. Aprender italiano. Continuar meu
treino de corrida. Alimentar a minha fome de viajar, só que agora dentro do meu
país, conhecer melhor esse Brasil enorme e diverso, que eu conheço muito
superficialmente. Enfim, essa atitude esperançosa de fazer planos já elimina e
muito as possibilidades de ficar deprimida.
Mas nem
tudo são rosas... E voltar pro Brasil tem seus pontos bons e seus pontos ruins.
Do lado bom tem tudo que é esse país lindo que eu tenho o prazer de chamar de “meu”,
com sua comida (ai que saudade do arroz e feijão, da goiabada com queijo e da
paçoca!), sua música (que não seja Michel Teló, que foi só o que eu ouvi esses
últimos dois anos, chega!), seu povo acolhedor, conversa de bar que dura horas,
piadas na fila do supermercado, forró, samba, rodinha de violão. Tudo isso pesa
muito. Mas o lado negativo é foda, e é extremamente frustrante, principalmente
depois que se viveu e conviveu com tantas outras culturas pelo mundo, onde as
coisas funcionam (ou não) de forma diferente. Aqui vai a lista das minhas
frustrações na volta pro Brasil:
Os preços:
é chocante voltar pro Brasil e ver a disparidade dos preços em relação ao resto
do mundo. Tudo bem que eu passei boa parte da viagem em lugares onde o custo de
vida é super barato. Na Tailândia eu pagava 5 dólares por dia pelo meu
quarto, 1 dólar por um belo prato de
comida (frango agridoce, hmmmm!). No Camboja, 25 dólares pagava um bangalô num
hotel com direito a piscina e café da manhã. Mas mesmo comparando com lugares
mais caros, como a Itália ou a Espanha, o Brasil ganha de lavada no quesito
preços estratosféricos. 900 reais num criado-mudo da Tok & Stok? Tem
gaveteiro de 6 gavetas na Ikea por 50 euros! Roupa de cama por 500 reais? Nem
de algodão egípcio 300 fios... A mais cara que eu achei foi na Pottery Barn, e
saía por 80 dólares pra cama tamanho queen. Ainda não fiz compras de
supermercado, mas acho difícil que saia pelos 20 euros semanais que eu gastava
no mês que passei na Itália. Fui comprar uma calça de yoga, e saía pela
bagatela de 300 reais! A minha bota de couro italiana saiu por esse preço... Tênis
de corrida da Mizuno que comprei por 50 euros, aqui sai por quase mil reais! E
o pior é ouvir de todo mundo que é assim mesmo, esse é o preço. Acho um
absurdo. Aí vão falar, ah, é porque você vai em lojinha burguesa, de elite. Pois
saibam que nem em lojinha burguesa de elite você encontra coisas nesse preço na
Europa (tirando Gucci e afins, e vamos e convenhamos, as nossas lojas de roupa
não são nenhuma Gucci). E a razão é simples: ninguém compra. Os preços aqui são
absurdos em parte por causa da tarifação, mas em parte também porque o
brasileiro compra. Porque o brasileiro dá valor às coisas pelo preço, quanto
mais caro melhor, mais chique, mais elite. Pra quem tá voltando e começando
praticamente do zero, dá um certo pânico imaginar que vou gastar alguns
milhares de reais pra refazer meu guarda-roupa e meu apartamento.
Principalmente sabendo que eu conseguiria fazer a mesma coisa na Europa ou nos
Estados Unidos por bem menos.
Serviço:
passei por pelo menos 20 países nesses últimos dois anos, e posso afirmar: o
Brasil tem a pior internet de todos. Talvez se equipare (por pouco) com países
como a Tailândia, o Camboja e a Malásia. Agora, o pior: pagamos um absurdo por
esse serviço porcaria. Na Tailândia, pagava mais ou menos 10 dólares por mês
pra um pacote de internet ilimitada. No Reino Unido foram 10 pounds, na Itália
15 euros. Isso já contando com o chip, num plano pré-pago. Aqui? Pago 200 reais
por mês, e o 3G mal funciona na maioria das vezes. Sem contar com outros
absurdos, como o DDD. Como assim, isso ainda existe?? Não existe em lugar
nenhum do mundo! Nos Estados Unidos, que tem quase o dobro de estados que o
Brasil, ninguém transfere o seu número quando muda de estado, porque não faz a
menor diferença. Nem ligando pra operadora diferente, tudo custa igual. No
Reino Unido também, e olha que estamos falando de quatro países diferentes! Mas
aqui, meu pacote tem que ter DDD incluído, e olha que é só DDD dentro da minha
operadora... Se ligar pra Vivo ou pra Tim, sai mais caro. Banco também, nos
Estados Unidos não tem agência e gerente preferencial (a não ser que você seja
milionário). Tem que resolver um problema na sua conta? Entra em qualquer
agência, em qualquer estado, apresenta o seu cartão, e o gerente de plantão vai
resolver. Funciona perfeitamente. Aqui eu não consigo liberar o meu cartão se
não for na minha agência, o que já gerou vários problemas quando estava no Rio
ou em Salvador e meu cartão bloqueou.
Falta de
respeito: o brasileiro não tem o mínimo de respeito ao próximo. Chegou atrasado
no aeroporto e seu voo vai sair? Paciência, devia ter chegado mais cedo, não é
justo passar na frente das pessoas que chegaram no horário correto, atrasando o
processo de todo mundo. Aquele papelzinho de bala ou bituca de cigarro que você
jogou no chão? É o que faz a cidade inundar nas chuvas porque os bueiros estão
entupidos. Sabe aquela placa branca com um E escrito e um traço enorme cruzando
no meio? Se você tem carteira deve saber o que significa. Proibido estacionar.
Não, não significa que você pode parar ali só um pouquinho enquanto vai ali na
esquina comprar pão. Não significa que você pode ir no barzinho e ficar de olho
pra tirar o carro quando um policial passar. Existe um motivo pra ser proibido
estacionar nesse local, e não é só pra infernizar a sua vida. O seu carro estacionado
em local proibido atrapalha o fluxo do trânsito causando engarrafamentos,
atrapalha a visão causando possíveis acidentes. Ah, mas não tem vaga. Mentira.
Não tem vaga perto de onde você quer ir. Vaga sempre tem... Claro que ninguém
quer parar a quilômetros de distância, mesmo porque voltar a pé pra pegar o
carro de noite é perigoso. O que nos traz ao meu próximo ponto de frustração...
Segurança:
achava muita graça quando minha mãe ficava preocupada com a minha segurança
durante a minha viagem. Nós vivemos em um dos países mais violentos do mundo, e
ela está preocupada com a minha segurança na Tailândia e no Camboja? Nos seis
meses que eu vivi na Tailândia, voltei inúmeras vezes pra casa sozinha, as 3
horas da manhã, andando uns 2 km por ruas escuras e desertas. Idem pra Hanoi
(Vietnã), Aqaba (Jordânia) e até Jerusalém. Tinha cuidado, claro. Mas nunca
senti o nível de medo que sinto ao andar por menos de um minuto do barzinho até
meu carro estacionado na quadra. No Rio, meu pai e madrasta foram de carro pra
uma festa que ficava a duas ruas de distância. É uma realidade triste, e
durante a viagem ouvi histórias de amigos aqui que sofreram sequestro
relâmpago, e até de um amigo que foi esfaqueado na quadra do Beira norte
(felizmente ele está bem). Não se pode andar a pé, nem dar uma corridinha no
fim da tarde; não se para em sinal vermelho depois de uma certa hora; não se para nem pra ajudar alguém na beira da
estrada, muito menos dar carona. Tudo pode ser golpe, armação, e numa dessas
você acaba esfaqueada, estuprada e jogada na beira da estrada... Exagero? De
jeito nenhum. E desse jeito vamos levando, só relaxando de verdade quando
chegamos em casa no fim do dia e trancamos a porta. Isso não é vida...
Mas é essa
a vida que temos. Acho que a falta de respeito, no final, é raiz de tudo. A
falta de respeito do governo por seus cidadãos, dos empresários pelos seus
clientes, e dos cidadãos consigo mesmos é que gera a falta de segurança, os
preços exorbitantes, os serviços meia-boca que temos por aqui, além de tantos
outros problemas. A cultura do “jeitinho” é que gera essa atitude tão
brasileira de se achar “no direito”, como se o meu direito não valesse o mesmo
tanto que o seu. Queria dizer que muita coisa mudou nesses dois anos que estive
fora... Mas se mudou, vou ser bem sincera, foi pra pior. E assim, com menos de
um mês no Brasil, já sinto a velha frustração se instalando...
Mas o meu
lado otimista sempre vence, e eu quero muito acreditar que meus filhos (futuros
e, por enquanto, fictícios) poderão viver num país melhor... É pra eles que eu
brigo, discuto e debato, porque na minha vida acho que não vejo não.
Força na
peruca e bola pra frente! E tem sempre aquela viagenzinha pro exterior pra
fazer enxoval completo pra casa, que mesmo com a passagem acaba saindo mais
barato do que comprar aqui :-P



