
Tinha tantas coisas para escrever. Tem pelo menos cinco assuntos diferentes já "pautados", colocados como rascunhos, prontos para serem destrinchados...
Mas ontem faleceu uma amiga minha. E resolvi escrever sobre isso.
Não vou dizer que a Gil era a minha melhor amiga. Eu era (sou ainda, obviamente) muito mais amiga do irmão dela, o Gus, e da sua esposa, a Paty. Mas a Gil era um doce de pessoa, daquelas sempre de bem com a vida, alegre, carinhosa. Tinha uma voz linda, amava cantar, música era a vida dela. Podia estar no meio de uma conversa, se alguém começasse a tocar alguma coisa no violão, ela já começava a cantarolar junto. Não tive muitas oportunidades de conviver com ela, e essa é exatamente a dor que eu sinto, e tenho certeza que é a razão de tanta tristeza mostrada hoje no cemitério de Brasília.
É a tristeza de tudo que não poderemos fazer e experimentar ao lado de uma pessoa tão linda. É a falta de um futuro, uma eternidade que não teremos mais. Como dizia Renato Russo, "essa saudade que eu sinto de tudo que eu não vi."
A vida da Gil, o que eu pude presenciar, foi linda. Poucas pessoas podem dizer isso ao fim da vida, tem gente que vive 90, 100 anos e não toca tantas pessoas como a Gil tocou. Foi uma vida bem vivida, e muito celebrada. Nunca vi o cemitério tão cheio como estava, gente de todos os cantos, todas as tribos. Escalada, Camar, Laugi. Tenho orgulho de ter tido a companhia, mesmo por tão pouco tempo, de uma pessoa tão linda.
A minha dor não é pela Gil. Sei que, onde quer que esteja (aí vai da fé de cada um), ela está bem, feliz. Livre.
Difícil é pra quem fica. Difícil é pra quem gostaria de compartilhar alguma notícia, novidade, felicidade, e não pode mais. É por essas pessoas, eu incluída, que eu tenho rezado.
Segue um texto que eu acho lindo. Não, não é de Carlos Drummond de Andrade (mesmo porque, eu nunca vi Drummond usar a palavra "bacana" em nenhum dos seus textos ou poesias). É da Martha Medeiros, sobre um poema de Emílio Moura, que era amigo de Drummond. A internet e seus frankensteins... Mas de qualquer forma, aí vai o original.
As Possibilidades Perdidas
Martha Medeiros
Fiquei sabendo que um poeta mineiro que eu não conhecia, chamado Emílio Moura, teria completado 100 anos neste mês de agosto, caso vivo fosse. Era amigo de outro grande poeta, Drummond. Chegaram a mim alguns versos dele, e um em especial me chamou a atenção: "Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive".
Definitivo, como tudo que é simples: Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade interrompida.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais.
