terça-feira, 26 de setembro de 2006

Um dia, um adeus


Tinha tantas coisas para escrever. Tem pelo menos cinco assuntos diferentes já "pautados", colocados como rascunhos, prontos para serem destrinchados...

Mas ontem faleceu uma amiga minha. E resolvi escrever sobre isso.

Não vou dizer que a Gil era a minha melhor amiga. Eu era (sou ainda, obviamente) muito mais amiga do irmão dela, o Gus, e da sua esposa, a Paty. Mas a Gil era um doce de pessoa, daquelas sempre de bem com a vida, alegre, carinhosa. Tinha uma voz linda, amava cantar, música era a vida dela. Podia estar no meio de uma conversa, se alguém começasse a tocar alguma coisa no violão, ela já começava a cantarolar junto. Não tive muitas oportunidades de conviver com ela, e essa é exatamente a dor que eu sinto, e tenho certeza que é a razão de tanta tristeza mostrada hoje no cemitério de Brasília.

É a tristeza de tudo que não poderemos fazer e experimentar ao lado de uma pessoa tão linda. É a falta de um futuro, uma eternidade que não teremos mais. Como dizia Renato Russo, "essa saudade que eu sinto de tudo que eu não vi."

A vida da Gil, o que eu pude presenciar, foi linda. Poucas pessoas podem dizer isso ao fim da vida, tem gente que vive 90, 100 anos e não toca tantas pessoas como a Gil tocou. Foi uma vida bem vivida, e muito celebrada. Nunca vi o cemitério tão cheio como estava, gente de todos os cantos, todas as tribos. Escalada, Camar, Laugi. Tenho orgulho de ter tido a companhia, mesmo por tão pouco tempo, de uma pessoa tão linda.

A minha dor não é pela Gil. Sei que, onde quer que esteja (aí vai da fé de cada um), ela está bem, feliz. Livre.

Difícil é pra quem fica. Difícil é pra quem gostaria de compartilhar alguma notícia, novidade, felicidade, e não pode mais. É por essas pessoas, eu incluída, que eu tenho rezado.

Segue um texto que eu acho lindo. Não, não é de Carlos Drummond de Andrade (mesmo porque, eu nunca vi Drummond usar a palavra "bacana" em nenhum dos seus textos ou poesias). É da Martha Medeiros, sobre um poema de Emílio Moura, que era amigo de Drummond. A internet e seus frankensteins... Mas de qualquer forma, aí vai o original.

As Possibilidades Perdidas
Martha Medeiros

Fiquei sabendo que um poeta mineiro que eu não conhecia, chamado Emílio Moura, teria completado 100 anos neste mês de agosto, caso vivo fosse. Era amigo de outro grande poeta, Drummond. Chegaram a mim alguns versos dele, e um em especial me chamou a atenção: "Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive".

Definitivo, como tudo que é simples: Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das que foram sonhadas e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade interrompida.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Lapsos de cansaço...

Tou cansada... Cansada de obra que não acaba, peça que não chega, dinheiro que só sai da conta. Gente que não explica direito e me faz fazer duas viagens pra resolver uma coisa simples. Cansada de morar num quarto bagunçado, onde não cabem minhas coisas, meus livros, meus CDs, DVDs e, principalmente, minhas roupas. Cansada de tentar e não conseguir, de correr atrás e não chegar a lugar nenhum, de me esforçar e não ver retorno. De ser boazinha e ser maltratada.

Não, eu não estou deprimida. E não, a minha vida não está ruim. Tenho tantas milhões de coisas maravilhosas acontecendo agora, projetos novos, muita música, viagens, amigos... Até o tal apartamento é, como tudo na vida, razão ao mesmo tempo de frustrações e alegrias. Mas eu sou como o Calvin (aquele menininho que tem um tigre chamado Haroldo), "felicidade não é bom o suficiente para mim. Eu exijo a euforia!"

Quanto ao título do post, vem de um poema de Álvaro de Campos chamado Lisbon Revisited. É grande, então vou transcrever apenas o comecinho:

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número de porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me a praia.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

É caminhando que se faz o caminho


Brasília, 27 de maio de 2004

¡Hola, chicos y chicas!

Peço desculpas pela "sumida" ao final da viagem, mas os povoados foram ficando cada vez menores, mal tinham telefone, quanto mais acesso à internet...

Pois é, já estou de volta ao Brasil, e de volta ao trabalho. A viagem foi fantástica, peguei todos os climas possíveis, vento, chuva, granizo, neve, sol... Foi como uma vida inteira, gente que caminha ao nosso lado por um determinado tempo e depois acaba se separando, gente que a gente conhece só de passagem mas que marcam o caminho com a sua presença, e gente que acaba caminhando com a gente quase o caminho todo. Aprendi a falar espanhol, um pouco de francês, até um pouco de japonês, aprendi que o cansaço é relativo e que se é pra sair e estar com gente que você gosta, não importa quantos quilômetros você tenha caminhado. Aprendi um pouco de história, um pouco de religião, um pouco de política e geografia espanhola, muito de gastronomia (aliás, as comidas espanholas são fantásticas). Muito sobre solidariedade, confiança, respeito e amizade. Muito sobre separação também, e uma partezinha do meu coração ficou no Caminho, nas igrejas, nos campos, nos povoados, na praça do Obradoiro em Santiago e no Farol do Fim da Terra...

A todos que pensam em fazer o Caminho de Santiago, eu dou o maior apoio. É uma experiência única e incomparável. Não tem nenhum tipo de revelação bombástica, o céu não se abre e nem todas as respostas são dadas, mas com o tempo, com as pessoas e com o caminhar, você pelo menos aprende a fazer as perguntas certas...

Saludos a todos, y que vayan bien.

Mariana

Pra quem não sabe, eu fiz o Caminho de Santiago no período de 15 de abril a 17 de maio de 2004. Foram 33 dias caminhando, e mais de 900 quilômetros percorridos, atravessando a Espanha desde a fronteira com a França até Finisterre, o Fim da Terra, ponto mais extremo do país. Foi fantástica, espetacular, uma experiência marcante e que com certeza mudou minha vida, ou pelo menos a minha forma de enxergá-la. Uma amiga minha vai fazer essa mesma caminhada, e enquanto a ajudo a se preparar, vou lembrando do meu próprio caminho, me divertindo com os emails, as histórias, as amizades. Acabei de colocar fotos do Caminho no meu site, http://www.marianastudart.org