terça-feira, 19 de setembro de 2006

Lapsos de cansaço...

Tou cansada... Cansada de obra que não acaba, peça que não chega, dinheiro que só sai da conta. Gente que não explica direito e me faz fazer duas viagens pra resolver uma coisa simples. Cansada de morar num quarto bagunçado, onde não cabem minhas coisas, meus livros, meus CDs, DVDs e, principalmente, minhas roupas. Cansada de tentar e não conseguir, de correr atrás e não chegar a lugar nenhum, de me esforçar e não ver retorno. De ser boazinha e ser maltratada.

Não, eu não estou deprimida. E não, a minha vida não está ruim. Tenho tantas milhões de coisas maravilhosas acontecendo agora, projetos novos, muita música, viagens, amigos... Até o tal apartamento é, como tudo na vida, razão ao mesmo tempo de frustrações e alegrias. Mas eu sou como o Calvin (aquele menininho que tem um tigre chamado Haroldo), "felicidade não é bom o suficiente para mim. Eu exijo a euforia!"

Quanto ao título do post, vem de um poema de Álvaro de Campos chamado Lisbon Revisited. É grande, então vou transcrever apenas o comecinho:

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja –
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas por dentro de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número de porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me a praia.

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